O Ritual da Moça Nova e a arte indígena Tikuna na decoração

A arte indígena representa algo maior que ela mesma e estabelece uma conexão poderosa com a história, as crenças, as tradições e os elementos culturais que formam particularidades de determinada etnia. A Tikuna, em especial, imprime em artesanatos feitos à mão como máscaras de parede em molongó, cestarias de fibra natural de arumã e os famosos voodus de tururi a riqueza da tribo indígena e de tudo o que compõe a sua cultura.

A Worecütchiga ou Festa da Moça Nova é um dos rituais de iniciação mais expressivos da etnia e é constantemente referenciado na produção artística da tribo, sendo uma maneira de assegurar a tradição e disseminá-la em todo o mundo. É o caso dos bonecos com máscaras figurando os curacas (curandeiros e chefes dos clãs Tikunas) durante uma das etapas da festa.

Adornos/ bonecos com máscaras de animais em tururi representando Curacas do Ritual da Moça Nova.

O Ritual da Moça Nova começa quando uma índia Ticuna alcança a menarca, ou seja, tem a primeira menstruação, demonstrando a transição para a vida adulta, a capacidade para ter filhos e formar uma família. Neste momento um ambiente com paredes de talos de buriti (turi) é construído para o “noviciado moçangol– enclausuramento (aure) da moça nova (worecü) para receber ensinamentos místicos e orientações da mãe e das tias, de modo a afastá-la dos maus espíritos (ngo’o) – enquanto a família começa os preparativos para a festa.

O pai da índia iniciada prepara o pajuaru, bebida alcoólica com mandioca fermentada, além de caçar e pescar moqueando (secando ou defumando) os alimentos para a cerimônia. Enquanto isso, os familiares se responsabilizam por convidar outros clãs para o ritual indígena que abarca a cosmogonia dos Tikunas, ou melhor, as crenças sobre a origem da etnia e a “natureza vegetal”.

As máscaras de animais simbolizam os seres da natureza e a atual separação do homem e do animal.

Quando todos os preparativos estão prontos, os convidados chegam e um brinde de pajuaru dá início às comemorações. Todos se pintam de jenipapo, cantam, tocam instrumentos indígenas e dançam adornados com fibras de buriti como símbolo de fertilidade. Os curacas aparecem mascarados simbolizando seres sobrenaturais e animais no momento em que a moça nova sai do turi e recebe pintura corporal e adornos para lembrá-la da existência de perigos e maus espíritos. Nesse âmbito, toda a tribo acessa os ancestrais durante o ritual.

Os cabelos da índia worecü são arrancados em pequenas mechas representando renovação, uma vez que para a tribo indígena o sofrimento é necessário para promover transformação e a entrada na vida adulta, além de homenagear os seres sobrenaturais incorporados pelos curacas. Após o ritual indígena que ocorre em três dias, o turi é destruído e a moça nova entra em um igarapé para se purificar e receber proteção, concluindo a festa.

Os índios Tikunas curacas aparecem mascarados quando a moça nova sai do turi para outra etapa do ritual.

Os bastões de dança, as cuias para o pajuaru e as máscaras dos curacas são representados nas estatuetas zoomórficas para decoração de interiores com riqueza de detalhes e demonstram tanto a excelência da produção artística indígena brasileira quanto o poder que possuem como diferenciadores étnicos e como afirmação da identidade cultural Ticuna. As máscaras ritualísticas, em especial, exibem o domínio da tecelagem com fibras naturais de tururi, pintadas com um rico acervo de plantas tintórias e pigmentos minerais.

Para os Tikunas, as imagens de animais figuradas nas máscaras remontam ao tempo em que não havia distinção entre eles e os humanos, de maneira que elas exemplificam essa separação. Outros detalhes da mitologia indígena são levados para o ritual como a crença na imortalidade proporcionada pelo porre (ngaün) de pajuaru que os fazem entrar no céu dos imortais (uünne).

Através dos bonecos os Ticunas mantém essa tradição viva e disseminam a cultura da etnia em todo mundo.

Ao reproduzir a imagem dos curacas em bonecos, a arte Ticuna se revela um importante veículo de disseminação e forma de resistência da cultura indígena amazonense. Os vodus feitos à mão utilizando a mesma técnica, matéria-prima e pigmentos das máscaras do Ritual da Menina Moça agregam um valor especial a cada escultura étnica, incorporando na decoração um novo conceito de luxo que considera a história, as crenças e o trabalho artesanal indígena.

A máscara decorativa do boneco é removível e traz à tona o papel humano nas tradições. Vesti-lo mantendo o espírito do animal ou despi-lo revelando a face do índio Tikuna curaca faz-nos, de certa forma, participar do ritual e transformar o ambiente ao decorá-lo com artesanatos indígenas repletos de propósito. Em nossa loja virtual há as mais extraordinárias artes Ticunas, de luminárias à adornos. Permita-se se surpreender com a beleza de cada uma delas.

Namastê!

Milene Sousa – Arte & Sintonia

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