Shiva, o Destruidor – Simbologia do deus hindu na decoração zen

Histórias, referências, técnicas e materiais se unem através das belas artes para exprimir que a arte em essência, assim como a cultura, é sempre plural; desenvolvida com a junção de muitos fatores. Assim também ocorre quando o tema central é um sistema religioso como o hinduísmo e a concomitante representação artística das divindades hindus.

Lord Shiva, um dos deuses mais cultuados na Indonésia – onde a espiritualidade se conecta a todas as formas de arte, da produção artesanal à obra – apresenta iconografia formada por diversos elementos simbólicos carregados de ensinamentos das distintas vertentes filosóficas que formam o hinduísmo e disseminam suas crenças em todo o mundo.

Na cosmovisão hindu, Shiva é pai de lord Ganesha com sua consorte Parvati e compõe ao lado de Brahma e Vishnu a Trimúrti, trindade de deuses hindus responsáveis, respectivamente, pela destruição, criação e manutenção do universo, do equilíbrio ou da lei eterna. Ele é o deus Destruidor ou Transformador, já que controla o ciclo do tempo e faz ruir a ignorância, as ilusões e os apegos do mundo para que surjam oportunidades de crescimento e renovação.

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A imagem de Shiva reúne diferentes ciclos para mostrar que a destruição é importante para o andamento de todos.

Através da existência dedicada à elevação espiritual com práticas ascéticas e zen como yoga e meditação Shiva ensina a desapegar e a respeitar os ciclos da vida. No olhar dos artesãos a deidade é materializada com asanas (posturas de yoga) e mudras (gestos com as mãos) que clamam confiança na sabedoria divina e na conexão de tudo o que existe no universo.

Cada aspecto da iconografia de Shiva entalhada em artes decorativas como mandalas e esculturas ou representada em pinturas artísticas apresenta uma simbologia conectada ao tempo e à transformação. O corpo desnudo coberto de cinzas enfatiza a superioridade do espírito diante da matéria e demonstra a conexão com o ciclo da vida, ressaltando a importância da destruição para ocorrer a mudança.

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Shiva se dedicou à vida ascética (voltada a espiritualidade e contemplação) por isso é considerado criador do yoga.

Shiva é considerado Tryambaka Deva (lorde de três olhos) no épico hindu Mahavharata, de modo que os olhos representam o sol e a ação (direito) e a lua e o desejo (esquerdo), enquanto o terceiro olho, o olho da sabedoria, simboliza o fogo (energia espiritual) e a percepção divina. A lua crescente nos cabelos evidencia que está além das emoções; a pele de tigre, por sua vez, mostra que o poder destrutivo também está além da força ou do instinto.

A cobra no pescoço representa o tempo (passado, presente e futuro) e destaca as leis da justiça que mantém a ordem do universo. As argolas nas orelhas (kundalas) simbolizam alakshya e niranjan – o que não pode ser mostrado e o que não pode ser visto por mortais. Ganga, deusa personificada pelo rio Ganges é amparada entre os cabelos de Shiva escoando como um filete de água, simbolizando a purificação que emana do corpo em forma de pensamentos e ações.

O símbolo Om (Ohm ou Aum), às vezes é associado à imagem de Shiva, que representa o som sagrado presente em tudo o que existe, cuja combinação de curvas com um semicírculo e um ponto representa os estados da elevação da consciência. O vibhuti é outro símbolo presente na figura do deus hindu caracterizado por três linhas horizontais que se conectam sob o terceiro olho. Ele simboliza pureza e sabedoria, através da queima simbólica dos desejos e apegos, bem como a compreensão da transitoriedade da matéria.

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Shiva é um dos três deuses hindus (trimúrti) mais importantes cultuados na Indonésia.

O tridente (trishul ou trishula) mostra proteção para as diferentes dualidades da vida vida e o ponto de equilíbrio energético entre elas chamados de Ida, Pingala e Sushumna. O japamala de rudraksha, semente sagrada também conhecida como lágrimas de Shiva, indica a vida dedicada à meditação. Já o tambor ampulheta (damaru ou damru) figura os ritmos que há em tudo o que existe, a natureza não dual do universo e a energia que flui no processo de expansão (criação e destruição).

O crânio personificando a quinta cabeça de Brahma, o arco de prata (pinaka), o lingan (representação anicônica da unificação do cosmo com seu criador), o touro branco (Nandi), símbolo do dharma, são outros elementos significativos também encontrados na iconografia de Shiva.

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Shiva Nataraja é o dançarino cósmico que mantém o ritmo (o equilíbrio) do universo.

Sendo a dança uma das mais importantes formas de expressão da cultura hindu, Shiva também é visto como o dançarino cósmico na figura de Nataraja, o senhor da dança Tandava cujo ritmo (metáfora para o equilíbrio) se manifesta em todas as criações. Sob o círculo de fogo do interminável ciclo do tempo, segurando o centelha divina (agni) e o tambor damaru Shiva demonstra o abhaya mudra, gesto de destemor, e indica o pé esquerdo como símbolo da salvação.

Ao realizar a dança da destruição, Shiva mantém um dos pés sobre Aspamara Purusha, anão ícone da ignorância e da ilusão. As cobras figuram o egoísmo a ser combatido enquanto os cabelos esvoaçantes simbolizam a deusa Ganga, epítome do rio Ganges que purifica e remove a ignorância.

A imagem de Shiva Nataraja é um ensinamento sobre a manutenção do equilíbrio entre a ignorância (que não é destruída, mas controlada) e o conhecimento.

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Shiva ensina a desapegar da matéria e a respeitar o tempo das coisas com a destruição (fim ou morte).

Qualquer que seja sua manifestação Shiva ensina a importância do desapego e da compreensão dos ciclos da existência aceitando os processos de morte (destruição). Essencialmente ou na materialidade algo sempre morre para algo nascer e manter o equilíbrio. Portanto, acesse os ensinamentos das artes decorativas hindus com Shiva e esteja atento ao que precisa deixar ir.

Namastê!

Milene Sousa – Arte & Sintonia

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